quinta-feira, 25 de agosto de 2016

SENADO COMEÇA A DECIDIR SE O BRASIL É UMA DEMOCRACIA

: Começa, nesta quinta-feira, a fase final do julgamento da democracia brasileira no Senado Federal; caso a presidente Dilma Rousseff seja afastada sem que tenha cometido crime de responsabilidade, como acusam a imprensa internacional, artistas, intelectuais, juristas e historiadores, o voto no Brasil não terá nenhum valor daqui para a frente; eleições poderão continuar a existir, mas nenhum governo eleito terá segurança se não se render à chantagem do parlamento; isso significa que o eventual afastamento de Dilma condenará, para sempre, a democracia brasileira e os votos de milhões de eleitores serão sempre irrelevantes diante dos conchavos no Congresso e das armações oligárquicas.

247 – Nesta quinta-feira, começa a fase decisiva do julgamento da presidente Dilma Rousseff. Serão ouvidas testemunhas e ela própria irá ao Senado, na próxima segunda-feira 29, para se defender diante de 81 senadores e da História.

Como já apontaram juristas, historiadores, intelectuais e, mais recentemente um grupo de artistas e pensadores internacionais (saiba mais aqui), o Brasil de 2016 está sendo vítima de um golpe de estado, uma vez que até os opositores de Dilma sabem que não foi cometido qualquer crime de responsabilidade como exige a Constituição para que ocorra um processo de impeachment. Está-se diante de um golpe branco, sem tanques e canhões nas ruas, mas, ainda assim, um golpe que envergonhará para sempre a atual e as novas gerações caso venha a ser consumado.

Trata-se de um golpe parlamentar em que a decisão de apenas 54 senadores pode vir a cassar o voto de 54 milhões de eleitores. A esses parlamentares, tudo tem sido prometido no mercado persa aberto pelo interino Michel Temer, de quem se esperava lealdade à presidente eleita, para se manter no poder. É um vale-tudo de uma eleição indireta que transformou o presidencialismo brasileiro num parlamentarismo imposto à força, sem que o povo fosse consultado,

No roteiro original do golpe, idealizado por lideranças da oposição derrotada nas últimas quatro eleições presidenciais, Temer seria apenas um fator de transição e faria a chamada "ponte para o futuro" depois da deposição da presidente eleita. O impeachment seria facilmente aceito pela sociedade e o vice em exercício, com apoio de meios de comunicação conservadores, faria reformas profundas – e altamente impopulares – na economia.

Nada disso deu certo. A mais recente pesquisa Vox Populi revela que 79% dos brasileiros defendem a saída imediata de Temer do cargo – para 61% deve haver novas eleições, enquanto 18% querem que Dilma siga até o fim de 2018. A desestabilização provocada pelo golpe, que trouxe consigo uma sabotagem parlamentar de dois anos, arrastou a economia para a mais grave recessão de sua história e aproximou as contas públicas brasileiras, pretexto para o golpe, das contas públicas da Grécia, como apontou um ministro do próprio governo interino. E aliados que, até ontem, apoiavam o golpe, já ameaçam romper com o interino com a percepção crescente de fracasso do projeto golpista.

O valor do voto

Na narrativa conservadora, o segundo impeachment desde a redemocratização seria a prova de maturidade das instituições brasileiras. Na verdade, o Brasil assiste hoje ao apodrecimento de suas instituições, cujo exemplo mais recente é a guerra aberta entre ministros do Supremo Tribunal Federal, procuradores e associações de magistrados, diante do choque entre investigações e a fragilização das garantias individuais.

O ponto central, no entanto, é outro. Caso Dilma seja efetivamente derrubada sem que tenha cometido crime de responsabilidade, a grande questão a se colocar será outra: para que votar? Qual será o valor do voto em novas eleições, mesmo que elas ocorram em 2018, 2022, 2026, se nenhum governante estará mais seguro?

O que o golpe de 2016 ensina para a História é muito claro: só ficarão no poder aqueles que forem capazes de domar as oligarquias e as chantagens parlamentares – no caso de Dilma, representadas pelo deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), sem o qual nada disso estaria acontecendo.

Isso significa que, se o golpe realmente se consumar, o Brasil não deixará de ser uma democracia apenas durante a "ponte para o futuro" de Michel Temer. Deixará de ser uma democracia para sempre, pois aqui ficará provado que as oligarquias midiáticas e os conchavos parlamentares são sempre mais fortes do que a soberania popular.

Dentro de uma semana, cada senador escolherá como será lembrado pela História: se como coveiro da democracia ou não.

COM LULA, PETROLEIROS CULPAM LAVA JATO PELA DESTRUIÇÃO DE EMPREGOS

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A Federação Única dos Petroleiros lidera nesta quinta-feira, 25/08, um ato em frente ao estaleiro Mauá, em Niterói, em defesa da Petrobrás, da indústria naval e pela geração de empregos; "Não dá para aceitar que os caras que roubaram cumpram prisão domiciliar em suas mansões, como o Nestor Cerveró e o Sérgio Machado, por terem feito delação premiada, e o trabalhador pague o pato com a sua demissão", critica o coordenador da FUP José Maria Rangel; Lula participa do encontro.

Da FUP – A Federação Única dos Petroleiros (FUP), a Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) realizam nesta quinta-feira, 25/08, um ato em frente ao estaleiro Mauá, em Niterói, em defesa da Petrobrás, da indústria naval e pela geração de empregos. O ato contará com a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e será transmitido ao vivo pelo facebook, através das fanpages da FUP e da CUT: @fupetroleiros, @CUTRJ e @cutbrasil

O coordenador geral da FUP, José Maria Rangel, defende a apuração rigorosa de todos os casos de corrupção que envolvam a Petrobrás, mas alerta que os trabalhadores não podem ser prejudicados pela operação Lava-Jato.

"Esse ato é para sensibilizar a sociedade sobre os efeitos nefastos que a Lava-Jato tem causado na indústria nacional, como o desmonte da construção naval e a paralisação dos setores de óleo e gás, impactando toda a cadeia produtiva. Uma coisa é investigar, e para a investigação ser correta é preciso que não tenha preferência partidária, que se investigue corruptos de todas as siglas. Outra coisa é paralisar um setor que já respondeu por 13% do PIB", declara o petroleiro, destacando que o ideal seria que as delações premiadas fossem substituídas por acordos de leniência, aquele em que o empresário fecha a colaboração com a investigação, é punido, mas a empresa pode continuar a operar.

"Não dá para aceitar que os caras que roubaram cumpram prisão domiciliar em suas mansões, como o Nestor Cerveró e o Sérgio Machado (ex-diretores da Petrobrás), por terem feito delação premiada, e o trabalhador pague o pato com a sua demissão", critica o coordenador da FUP.

O presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos, Paulo Cayres, destaca que Lava-Jato impede, inclusive, a conclusão de obras prestes a serem finalizadas e que seriam fundamentais para o destravamento da economia. "Queremos corrupto na cadeia, mas, do ponto de vista econômico, o que a Lava-Jato faz é um tiro no pé. Estávamos com a contratação definida para conclusão de obras como o porto de Suape e não pudemos renovar por determinação da operação. Por isso, precisamos alertar a sociedade e o trabalhador para que se mobilize e pressione quem não tem responsabilidade com o país", aponta.

Veja a convocatória para o ato:

A crise política e econômica que paralisa o país desde o início da operação Lava-Jato já desempregou 1,5 milhão de brasileiros. Enquanto isso, os criminosos corruptos usufruem dos benefícios das delações premiadas, descansando em suas mansões.

É preciso investigar e punir sem discriminação todos os empresários e políticos que praticam os crimes de corrupção que sangram há décadas o nosso país. Mas é inaceitável que essa conta seja imposta também a classe trabalhadora.

Os impactos da Lava-Jato fizeram encolher em 3,8% a economia nacional. As indústrias naval e petrolífera são as mais afetadas. Só o setor de óleo e gás teve uma redução de 27% nos investimentos nos últimos dois anos. Sem os investimentos da Petrobrás, que é a principal locomotiva da indústria nacional, a economia do país encolheu 3,8%.

O setor metalúrgico foi o que mais sofreu o impacto desse desmonte. Entre janeiro de 2015 e abril de 2016, foram fechados mais de 335 mil postos de trabalho.

A indústria naval demitiu 21 mil trabalhadores e passa hoje pela maior crise desde a retomada do setor, em 2003, quando, por decisão do presidente Lula, a Petrobrás passou a encomendar seus navios e plataformas no Brasil.

A região de Niterói e Itaboraí, principal polo da indústria naval, que chegou a ter 10 estaleiros, hoje só conta com a metade, em funcionamento precário. O resultado são 12,7 mil trabalhadores desempregados.

É preciso reagir à crise causada pela Lava-Jato e interromper o desmonte da indústria nacional. Que os corruptos paguem pelos seus crimes, sem prejudicar a classe trabalhadora.

Todos juntos, no ato do dia 25, com Lula, em defesa da Petrobrás, da indústria naval e pela geração de empregos!

Federação Única do Petroleiros - FUP
Confederação Nacional dos Metalúrgicos - CNM
Central Única dos Trabalhadores - CUT

Lava Jato investigou mais dois ministros do STF

247 – A colunista Mônica Bergamo informa que a Lava Jato investigou outros dois ministros do Supremo Tribunal Federal, além de Dias Toffoli. "O governo de Michel Temer acompanha com lupa a crise entre o Ministério Público Federal e o STF (Supremo Tribunal Federal). E tem informações de que procuradores tentaram investigar, além do ministro Dias Toffoli, também assessores e familiares de outros dois magistrados da corte. O STF trabalha com a mesma informação", diz ela. Gilmar Mendes foi o ministro da corte que reagiu com mais contundência e acabou sendo acusado por associações de magistrados de tentar sabotar a Lava Jato. Além de Toffoli, outros dois ministros do STF foram investigados pelo MPF

Mônica Bergamo  

O governo de Michel Temer acompanha com lupa a crise entre o Ministério Público Federal e o STF (Supremo Tribunal Federal). E tem informações de que procuradores tentaram investigar, além do ministro Dias Toffoli, também assessores e familiares de outros dois magistrados da corte 

MESMA ESTRADA

O STF trabalha com a mesma informação. 

PÊNDULO

O governo tem conhecimento ainda de que um racha contrapõe hoje procuradores ligados a Rodrigo Janot, em Brasília, ao grupo que toca a Operação Lava Jato em Curitiba. As divergências são antigas e já tiveram momentos até mais críticos. 

SÓ O COMEÇO

A divisão poderia estar na origem do vazamento da informação de que Dias Toffoli aparecia nas tratativas de delação premiada da empreiteira OAS. 

SOPA RALA

O grupo de Janot era contra a inclusão do nome de Toffoli no acordo, já que as informações preliminares dadas pela OAS não configuravam nenhum crime. 

CALDO

A suspeita é que, incomodados com a exclusão do nome de Toffoli da delação e sem ter como investigá-lo, já que o ministro tem foro privilegiado, procuradores do Paraná espalharam a informação do relacionamento dele com a OAS, que chegou ao conhecimento de jornalistas. Essa seria uma das origens do vazamento. Mas não obrigatoriamente a única. Janot trabalha com a possibilidade de que a empreiteira tenha divulgado dados. 

CALDO 2

Gilmar Mendes, do STF, citou o fato de que procuradores do Paraná chegaram a escrever artigo "achincalhando" Toffoli como sinal de que poderiam ter vazado dados contra o magistrado. Questionados, os procuradores não se manifestaram até a conclusão da coluna.

Excessos de autoritarismo da Lava Jato são problema institucional

Janio de Freitas

Uma hipótese, um tanto óbvia, veio já no ataque inicial do ministro Gilmar Mendes ao "vazamento", maldoso e injusto, de referência na Lava Jato ao ministro Dias Toffoli, do Supremo. "É necessário investigar os investigadores" da Lava Jato –repetiu Mendes essa frase sua do ano passado, agora completando a observação de que procuradores da Lava Jato estão em choque com Toffoli, por eles atacado até em artigo. Entre hipóteses possíveis, porém, viceja em círculo judicial aparentemente estreito uma menos fácil e mais excitante que a de Mendes.

A delação afinal aceita por Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, poderia ser a mais promissora, mas já as discussões iniciais mostraram-se tão problemáticas quanto as de Marcelo Odebrecht. Muito afável, prestativo e de acesso simples, Pinheiro teria com que inundar a Lava Jato de informações e esclarecimentos. E, esperavam os procuradores, obsessão acima de todas, o que buscam em vão sobre a propriedade do sítio e do apartamento atribuída a Lula. Léo Pinheiro foi decepcionante para a Lava Jato nas preliminares sobre a futura delação: não admitiu que o sítio e o apartamento sejam de Lula.

Era muito fácil a previsão de que implicar um ministro do Supremo, em mais um "vazamento", daria oportunidade a sustar o acordo de delação premiada com Léo Pinheiro. Além de não dizer o que desejavam, o possível delator e seu manancial de informações por certo desvendariam pessoas e grupos não incluíveis na mira acusatória da Lava Jato. Criar o caso e, suspenso o acordo de delação, deixar Léo Pinheiro calado: está feito.

A hipótese de Gilmar e a outra não se excluem, talvez se completem. Em ambas, aliás, confirma-se que Léo Pinheiro paga pelo que não disse e não fez. Com toda a certeza, não é o autor do "vazamento", inexistindo qualquer motivo para a punição que o procurador-geral Rodrigo Janot lhe aplicou, e só a ele, cassando-lhe o direito de buscar o mesmo benefício dado a tantos delatores.

Se o "vazamento" é algo tão grave, definido como crime por Gilmar Mendes e motivador do ato extremado de Janot, à pergunta "a quem interessa?" emenda-se outra: por que tanto consentimento, por tanto tempo, para atos agora qualificados de "excessivos", "inaceitáveis" e "abusos de autoridade"?

O Conselho Nacional do Ministério Público manteve-se impassível diante da torrente de "vazamentos" que os tornou costume característico da Lava Jato. O Conselho Nacional de Justiça teve a mesma indiferença, em relação ao chefe da Lava Jato, juiz Sérgio Moro. O procurador-geral chegou a emitir uma nota com advertências sobre os excessos, mas recuou na aplicação dos seus conceitos à prática. Esses comportamentos constituíram uma carta branca para a Lava Jato e sua prepotência.

Até um leigo, como sou, anteviu que os excessos de autoritarismo da Lava Jato, uma vez consentidos, cresceriam em número e em grau de gravidade. E viriam a ser um problema institucional. São.

Léo Pinheiro de nada acusou Dias Toffoli, nem insinuou. Mas, se a substância não fere o Supremo, o "vazamento" o atinge pela intenção inequívoca de sua forma maldosa, desonesta mesmo. Dizem que vão investigar a procedência do "vazamento" ou "vazamentos". Quem a conhece são jornalistas. A Polícia Federal já pretendeu exigir de jornalistas a indicação de suas fontes. À Lava Jato só falta algo nessa linha, para um aparente atestado de bom comportamento contra a acusação de "abuso de autoridade". Iniciada por indignado Gilmar Mendes, aquele que reteve por ano e meio uma decisão importante do Supremo, enquanto expunha em público o teor do voto engavetado. Um abuso de autoridade escancarado.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Terceira guerra mundial?

Resultado de imagem para Terceira guerra mundial?Floriano Pesaro
http://port.pravda.ru/

Estamos vivendo momentos extremamente conturbados. Nossa impressão é que o mundo está em guerra. Uma guerra diferente, sem os traços de nação contra nação, mas mesmo assim, uma guerra. Até mesmo o papa Francisco declarou que o que acontece hoje é uma guerra. Suas palavras foram:" É um tipo de terceira guerra mundial combatida em 'pedaços'".

Desde Paris até Orlando, nos Estados Unidos, desde Bangladesh até a Nigéria, desde as colônias judaicas até Tel Aviv, desde Paris até Munique, um exército de terroristas assola nossa sociedade e seus soldados estão dispostos a morrer, desde que levem consigo dezenas e até centenas de cidadãos inocentes.

Como assistimos chocados, não temos mais a tranquilidade de estar comendo em um restaurante simpático e nem de comparecer em festividades, numa aglomeração de pessoas comemorando datas felizes. Nem mesmo podemos andar de trem serenos ou estudar livremente em universidades.

Também, não podemos nem mesmo ser jovens meninas tentando estudar como as sequestradas pelo grupo extremista Boko Haram ou a adolescente Hallel Yafa dormindo em paz na sua casa, atacada, esfaqueada e morta por um palestino ensandecido.

Hoje, os grupos assassinos se propagam pelo mundo todo e atingem todos os continentes. Além de grupos que organizadamente planejam ataques com logística, células com várias pessoas e poder de fogo intenso, temos uma nova forma de terrorista: o lobo solitário.

O lobo solitário é, na maioria das vezes, uma pessoa como nós, que é doutrinada pelas concepções fundamentalistas dos vários grupos terroristas, como o Hamas, o Hezbolá, o Isis, a Al Quaeda e até mesmo os grupos nazistas existentes atualmente. Este soldado, sem um exército tipicamente formado, acredita na narrativa destes grupos e se torna uma ponta de lança que irá adotar as posturas e as atitudes das organizações terroristas.

Os lobos solitários aprendem a odiar a partir das postagens nas redes sociais e através da propaganda dos grupos e decidem agir em nome de suas novas concepções morais. O lobo solitário é alguém que, em nome de sua crença deturpada, organiza ataques sem o suporte tático das organizações de terror. Em geral, são homens radicalizados que escolhem alvos determinados e relacionados geralmente com os princípios de uma vida livre e prazerosa, e resolvem ataca-los como forma de agredir um modo de viver que consideram pecaminoso.

As polícias do mundo todo estão atônitas e muito preocupadas com a dificuldade de detectar ou policiar este tipo de indivíduos porque, geralmente, eles agem sozinhos e mantêm pouca comunicação com outros terroristas. Em Israel, especificamente, eles aprenderam a atacar com fuzis e facas, e não escolhem alvos, qualquer um à sua frente é candidato à vítima. 

São todos leais servidores de causas extremistas, e os movimentos terroristas então assumem a autoria destes atos, vangloriando-se pela morte de inocentes. Infelizmente, parece mesmo que estamos em guerra. Uma guerra peculiar à qual não temos ainda determinado uma forma de responder à altura. O mundo não é mais território onde antigos valores de liberdade costumavam ser respeitados e vivenciados. Hoje, temos medo e nem mesmo sabemos de onde virá o perigo.

Resistir ao golpe e defender os direitos

Adilson Araújo, no site da CTB

Foi marcado para o próximo dia 25 o início do julgamento da presidenta Dilma Rousseff pelo Senado e a previsão é de que o processo de impeachment seja concluído no final do mês. Conforme já denunciamos em outras ocasiões, o teatro que está sendo encenado em Brasília é uma grande farsa política armada com o objetivo de mascarar um golpe de Estado que afronta os interesses maiores do povo e da nação brasileira. Se Dilma for definitivamente afastada, o governo golpista, que até o momento é interino apesar de não se comportar como tal, ganha o status oficial de permanente. Neste caso, a quadrilha que tomou de assalto o Palácio do Planalto, presidida pelo usurpador Michael Temer, por lá permaneceria até o fim do mandato em 2018. Ao lado do conjunto das forças democráticas e progressistas do país, a CTB lutará até o fim contra a consumação do golpe.

Serviçal dos EUA

A natureza reacionária do golpe transparece também na conduta cínica do chanceler golpista José Serra no interior do Mercosul, visando a expulsão da Venezuela. A nova política do Itamaraty conspira contra a integração soberana dos países latino-americanos e caribenhos e indica os compromissos antinacionais assumidos pelo governo ilegítimo com os EUA. Serra se transformou num testa de ferro da multinacional americana Chevron e é um político envolvido até o pescoço com a corrupção. A última notícia sua a este respeito dá conta de que recebeu 23 milhões de reais ilegalmente da Odebrecht enquanto o usurpador Temer ficou com R$ 12 milhões.

Medo do povo

Apoiado entusiasticamente pelo empresariado, o impeachment, que não tem base jurídica e vitima uma presidenta inocente, serve aos propósitos dos grandes capitalistas, dos latifundiários e, em particular, das transnacionais, do imperialismo. O governo é apoiado pela burguesia nacional e estrangeira, pelos ricaços e sua mídia, mas em Tem medo e prefere distância do povo, agindo às escuras, porque é formado exclusivamente por homens brancos, burgueses e ricos, sem a presença sequer de uma mulher, um negro ou um representante da classe trabalhadora. Vaiado na abertura, Temer fugiu covardemente da solenidade de encerramento das Olimpíadas. Como o general Figueiredo, o último ditador da safra de 1964, ele deve preferir o cheiro dos cavalos ao do povo.

Às ruas contra o retrocesso

O projeto dos golpistas - além de garantir impunidade para os corruptos do PMDB, PSDB, DEM e outros políticos de direita - é impor o retrocesso neoliberal em todas as frentes. O alvo principal são os direitos da classe trabalhadora, a CLT, a Previdência Social, os investimentos em saúde e educação, os serviços públicos e o funcionalismo. É imperioso lutar para proteger os direitos da classe trabalhadora, a CLT e a Previdência Social, bem como saúde e educação como direitos elementares do povo e dever do Estado, consagrados na Constituição Federal. Conclamo todas as lideranças da CTB a intensificar a visita às bases, ao chão das fábricas, aos locais de trabalho, para esclarecer os trabalhadores e trabalhadoras sobre o que está em jogo na atual conjuntura política e alertá-los para o risco de grave retrocesso e a necessidade de uma ampla mobilização social em defesa da democracia, dos direitos sociais, da integração latino-americana e da soberania nacional.

Instinto de morte de Freud está presente na derrubada de Dilma

Mario Sergio Conti

Além de deixar cartas e ensaios nos quais contou como a sua vida regrada o levou a uma obra subversiva, Freud foi muito bem biografado por Ernest Jones e Peter Gay. Já a psicanálise, com o passar dos anos, vem se retraindo na clínica e se dissipando na filosofia —dois movimentos que o teriam chateado bastante.

Há sentido, então, nesse tempo de depressão e de autoajuda, de retorno do religioso e de medicalização das almas, numa nova biografia do intelectual que disse que a religião é uma neurose obsessiva da humanidade?

Pois "Sigmund Freud", de Élisabeth Roudinesco (Zahar, 528 págs.), mostra que a sua obra e a sua vida ainda têm o que dizer ao presente. O livro pode dizer algo até ao Brasil da regressão iluminista, do golpe democrático desferido por pessoas racionais, interessadas apenas no bem público.

Analista que abandonou o ofício para se tornar historiadora, Élisabeth Roudinesco rastreou arquivos em busca dos temas freudianos que adquiriram maior relevância desde a sua morte, em 1939. A saber, as relações entre feminilidade e patriarcado; entre identidade judaica e nacionalismo; entre a sanidade do indivíduo e a social.

A amarrar todos os temas está o fio desencapado da política. Freud acompanhou a crise que provocou a ascensão do comunismo e do fascismo. Segundo Roudinesco, ele não os confundiu: "percebeu na revolução bolchevique um ideal revolucionário, enquanto tratava a barbárie nazista como uma regressão aos instintos mais assassinos da humanidade".

Por isso mesmo, a biógrafa se espanta com a sua relutância em encarar Hitler. Freud não pronunciava o nome dele, não leu "Mein Kampf", saiu de Viena na undécima hora. Mesmo em 11 de maio de 1933, quando Goebbels ordenou um auto da fé de 20 mil livros "judeus", continuou a ver no nazismo a expressão do antissemitismo recorrente.

Os livros de Marx foram queimados aos gritos de "contra a luta de classes e o materialismo"; os de Freud, com "contra a exaltação dos instintos e pelo enobrecimento da alma". Com um laivo de ironia, e até de otimismo, Freud comentou: "Que progresso fizemos. Na Idade Média, teriam me queimado; no presente, se contentam em queimar meus livros".

A ironia veio a se mostrar macabra. Com a anexação da Áustria, Freud conseguiu se exilar, em Londres. Quatro das suas irmãs, não. Sem que ele soubesse, mas com remorso por não ter conseguido que escapassem, as quatro octogenárias morreram, nos campos de Auschwitz, Treblinka e Theresienstadt.

Como foi fundo no estudo das ligações entre razão e barbárie, a ponto de ter criado o conceito de instinto de morte, Freud era um cético quanto ao progresso. Na hora da regressão real, contudo, acreditou mais nas luzes da razão do que na pulsão cega. Acreditou na cultura que gerou Kant, Mozart e Goethe –e no povo que elegeu Hitler.

Os que pelejam para derrubar a presidente nada têm a ver com o nazismo. Mas, nas franjas do seu movimento, o instinto de morte esteve sempre presente, da arregimentação virtual à avenida Paulista. O monstro dissemina ódio todos os dias na internet, sobretudo nos comentários apócrifos que, no entanto, formam a espinha dorsal de vários blogs.

As palavras que hoje são brandidas para atropelar a soberania popular e restringir a liberdade terão consequência. Palavras sempre geram atos. Já os atos antidemocráticos não geram democracia.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Crise e descaminhos no Mercosul

Erick da Silva, no site Sul-21

O ano de 2016 parece marcar o início de um ponto de virada nos rumos da integração sul-americana. O Mercosul, principal espaço institucional e de integração econômica na região, que vinha trilhando nos últimos anos uma rota de ampliação de sua área de influência e de busca de uma integração local efetiva, apresenta fortes sinais de que poderá rumar para um estágio regressivo que desvirtuará as potencialidades que uma possível integração soberana vislumbrava.

A ascensão de Macri na Argentina e de Temer no Brasil e as primeiras medidas que suas diplomacias têm executado com relação ao Mercosul, apontam para uma busca obstinada em reorientar o processo de integração que vinha sendo construído nos últimos anos. O fato mais notável é a movimentação que os dois países, aliados ao Paraguai, protagonizam para impedir que a Venezuela assuma a presidência temporária do bloco, como previsto pelas regras do Mercosul, provocando uma crise diplomática de grandes proporções.

O Brasil, na figura de seu ministro das relações exteriores José Serra, tem capitaneado as movimentações pelo veto a Venezuela. O pretexto utilizado para o impasse é o de que a Venezuela não adotou internamente, no prazo a que se comprometeu, o compêndio de regras do bloco. Em alguma medida, o país de fato, não cumpriu, o que todos reconhecem, inclusive a própria Venezuela, que, no entanto, alega ter adotado mais regras até do que países fundadores do bloco, criando assim uma situação que expõe o casuísmo com que esta posição contrária a Venezuela está embasada.

Serra ainda aponta razões políticas para negar o cumprimento das regras pré-estabelecidas no Mercosul, apoiando-se na crise política que o governo de Nicolás Maduro tem enfrentado. Não faltando adjetivações de toda a ordem por parte do ministro brasileiro, parecendo querer criar um clima político que inviabilize não apenas o ingresso da Venezuela na presidência rotativa do bloco, mas a própria continuidade da condição do país como integrante pleno. Já ensaiam uma proposta em que a Venezuela seria rebaixada para uma espécie de “segunda divisão”, retirando o direito de presidir o bloco.

Nesta contenda, um aspecto que chama a atenção é a radical mudança de postura do Itamaraty, agora chefiado pelo senador Serra. O elevado grau de politização e truculência com que ele tem conduzido a pasta, rompe com uma longa tradição mediadora que o Brasil por décadas cultivou no plano diplomático, onde o Ministério das Relações Exteriores eram, até então, um órgão de estado, não de governo. Temer e Serra estão rompendo com esta tradição para uma nova e temerária via.

Voltando ao Mercosul e sua atual crise, a solução do impasse em torno da Venezuela, independente de seu desfecho, possivelmente deixará marcas profundas. Os atuais impasses expõem uma configuração que se desenha no médio prazo, a partir destas primeiras tentativas capitaneadas por Argentina, Brasil e Paraguai, de uma reconversão a patamares muito similares aos primeiros tempos do bloco, enfraquecendo seu papel e, principalmente suas potencialidades.

Fragilizar os mecanismos de cooperação e fortalecer um viés meramente alfandegário é a ameaça que surge como decorrência do abandono de uma perspectiva de fortalecimento do multilaterialismo, apontando para o regresso de um unilateralismo subserviente ao norte global, em um perverso descaminho para o Mercosul.

Toffoli e o fruto da árvore envenenada

Gilmar vs Janot. Lava Jato é só do PT!Luis Nassif, no Jornal GGN

Entramos em um dos mais interessantes quebra-cabeças da Lava Jato: a operação fruto da árvore envenenada, possivelmente montada para livrar Aécio Neves e José Serra das delações da OAS. Trata-se do vazamento parcial da delação do presidente da OAS Léo Pinheiro, implicando o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal.

Peça 1 – o teor explosivo das delações

Já circularam informações de que as delações da OAS serão fulminantes contra José Serra e Aécio Neves. Até um blog estreitamente ligado a Serra – e aos operadores da Lava Jato – noticiou o fato.

Em muitas operações bombásticas, pré-Lava Jato, os acusados valiam-se do chamado “fruto da árvore envenenada” para anular inquéritos e processos. A Justiça considera que se o inquérito contiver uma peça qualquer, fruto de uma ação ilegal, todo o processo será anulado. Foi assim com a Castelo de Areia. E foi assim com a Satiagraha.

Na Castelo de Areia, foi uma suposta delação anônima. Na Satiagraha, o fato dos investigadores terem pedido autorização para invadir um andar do Opportunity e terem estendido as investigações a outro.

Peça 2 – os truques para suspender investigações

Vamos a um arsenal de factoides criados para gerar fatos políticos ou interromper investigações:

Grampo sem áudio – Em plena operação Satiagraha, aparece um grampo de conversa entre Gilmar Mendes, ministro do Supremo, e Demóstenes Torres, senador do DEM. Era um grampo às avessas, no qual o conteúdo gravado era a favor dos grampeados. Jamais se comprovou a autoria do grampo. Mesmo assim, com o alarido criado Gilmar conseguiu o afastamento de Paulo Lacerda, diretor da ABIN (Agência Brasileira de inteligência). Veículo que abrigou o factoide: revista Veja.

O falso grampo no STF – Recuperada a ofensiva, matéria bombástica denunciando um sistema de escutas no STF. Era um relatório da segurança do STF, na época presidido por Gilmar Mendes. Com o alarido, cria-se uma CPI do Grampo, destinada a acuar ainda mais a Polícia Federal e a ABIN. Revelado o conteúdo do relatório, percebeu-se tratar de mais um factoide. Veículo que divulgou o falso positivo: revista Veja.

O falso pedido de Lula – Em pleno carnaval da AP 470, Gilmar cria uma versão de um encontro com Lula, na qual o ex-presidente teria intercedido pelos réus do mensalão. O alarido em torno da falsa denúncia sensibiliza o Ministro Celso de Mello, o decano do STF, e é fatal para consolidar a posição dos Ministros pró-condenação. Depois, a única testemunha do encontro, ex-Ministro Nelson Jobim, nega veementemente a versão de Gilmar. Veículo que disseminou a versão: revista Veja.

O caso Lunnus – O grampo colocado no escritório político de Roseane Sarney, que inviabilizou sua candidatura à presidência. Caso mais antigo, na época ainda não havia sinais da aproximação de Serra com a Veja.

O suborno de R$ 3 mil – O caso dos Correios, um suborno de R$ 3 mil que ajudou a deflagrar o “mensalão”. Veículo que divulgou: Veja. Fonte: Carlinhos Cachoeira, conforme apurado na CPI dos Correios.

Peça 3 – a fábrica de dossiês

Com base nesses episódios, procurei mapear os pontos em comum entre os mais célebres dossiês divulgados pela mídia.


Confira:

Fato 1 – na Saúde, através da Funasa, o então ministro José Serra contrata a FENCE, empresa especializada em grampo, o delegado da Polícia Federal Marcelo Itagiba e o procurador da República José Roberto Figueiredo Santoro.

Fato 2 – em fato divulgado inclusive pelo Jornal Nacional, Santoro tenta cooptar Carlinhos Cachoeira, logo após o episódio Valdomiro Diniz.

Fato 3 – Cachoeira tem dois homens-chave. Um deles, o araponga Jairo Martins, seu principal assessor para casos de arapongagem. O segundo, o ex-senador Demóstenes Torres, seu principal agente para o jogo político. Ambos têm estreita ligação com o Ministro Gilmar Mendes: Demóstenes na condição de amigo, Jairo na condição de assessor especialmente contratado por Gilmar para assessorá-lo.

Fato 4 – todos os principais personagens do organograma – Serra, Gilmar, Cachoeira, Demóstenes e Jairo – mantiveram estreita relação com a Veja, como fontes, como personagens de armações ou como fornecedores de dossiês.

Não se tratava de meros dossiês para disputas comerciais, mas episódios que mexeram diretamente com a República. O organograma acima não é prova cabal da existência de uma organização especializada em dossiês para a imprensa. São apenas indícios.

Peça 4 – a denúncia contra Toffoli

Alguns fatos chamam a atenção na edição da Veja.

Fato 1 – já era conhecido o impacto das delações de Léo Pinheiro sobre Serra e Aécio (http://migre.me/uJKsj). Tendo acesso à delação mais aguardada do momento, a revista abre mão de denúncias explosivas contra Serra e Aécio por uma anódina, contra Toffoli.

Fato 2 – a matéria de Veja se autodestrói em 30 segundos. Além de não revelar nenhum fato criminoso de Toffoli, a própria revista o absolve ao admitir que os fatos narrados nada significam. Na mesma edição há uma crítica inédita ao chanceler José Serra, pelo episódio da tentativa de compra do voto do Uruguai. É conhecida a aliança histórica de Veja com Serra. A reportagem em questão poderia ser um sinal de independência adquirida. Ou poderia ser despiste.

Peça 5 – a posição do STF e do PGR

Um dos pontos defendidos de maneira mais acerba pelo Ministério Público Federal, no tal decálogo contra a corrupção, é a relativização do chamado fruto da árvore envenenada. Querem - acertadamente - que episódios irregulares menores não comprometam as investigações como um todo.

Se a intenção dos vazadores foi comprometer a delação, agiram com maestria.

Sem comprometer Toffoli, o vazamento estimula o sentimento de corpo do Supremo, pela injustiça cometida contra um dos seus. Ao mesmo tempo, infunde temor nos Ministros, já que qualquer um poderia ser alvo de baixaria similar.

Tome-se o caso Gilmar Mendes. Do Supremo para fora até agora, não houve nenhum pronunciamento público do Ministro, especializado em explosões de indignação quando um dos seus é atingido. E do Supremo para dentro? Estaria exigindo providências drásticas contra o vazamento, anulação da delação? Vamos aguardar os fatos acontecerem. Mas certamente, Gilmar ganha um enorme poder de fogo para fazer valer suas teses que têm impedido o avanço das investigações contra Aécio Neves.

A incógnita é o PGR Rodrigo Janot. Até agora fez vistas largas para todos os vazamentos da operação mais vazada da história. E agora?

Se ele insiste na anulação da delação, a Hipótese 1 é que está aliado a Gilmar na obstrução das investigações contra Aécio e Serra. A Hipótese 2 é que está intimidado, depois do tiro de festim no pedido das prisões de Renan, Sarney e Jucá. A Hipótese 3 é que estaria seguindo a lei. Mas esta hipótese é anulada pelo fato de até agora não ter sido tomada nenhuma providência contra o oceano de vazamentos da Lava Jato.

De qualquer modo, trata-se de um ponto de não retorno, que ou consagra a PGR e o Ministério Público Federal, ou o desmoraliza definitivamente.

Afinal, quem toca a Lava Jato é uma força tarefa que, nas eleições presidenciais, fez campanha entusiasmada em favor do candidato Aécio Neves. Bastaria um delegado ligado a Serra e Aécio vazar uma informação anódina contra um Ministro do STF para anular uma delação decisiva. Desde que o PGR aceitasse o jogo, obviamente.

Será curioso apreciar a pregação dos apóstolos das dez medidas, se se consumar a anulação da delação.

PS1 - A alegação dos procuradores, de que o vazamento teria partido dos advogados de Léo Pinheiro, visando forçar a aceitação da delação não têm o menor sentido. Para a delação ser aceita, os advogados adotariam uma medida que, na prática, anula a delação? Contem outra.

PS 2 - Na semana passada o procurador Carlos Fernando dos Santos lima já mostrava desconforto com a delação da OAS, ao afirmar que a Lava Jato só aceitaria uma delação a mais de empreiteiras. Não fazia sentido. A delação depende do conteúdo a ser oferecido. O próprio juiz Sérgio Moro ordenou a suspensão do processo, sabe-se lá por que. E nem havia ainda o álibi do vazamento irrelevante.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O PMDB, do Doutor Ulysses ao golpista Temer

: Emir Sader 

O PMDB tornou-se o partido que adere a todos os governos. Não consegue viver fora do poder, porque vive da repartição das prebendas – de cargos e de recursos – de quem detém poder. Esteve com FHC, com o PT e agora com o golpe.

Mas nem sempre foi assim. O PMDB foi o partido central da luta institucional contra a ditadura e pelo retorno da democracia. Congregou setores muito diferenciados, mas unidos por essa luta. Teve a direção do maior líder da luta democrática, Ulysses Guimarães. Que teria sido o candidato favorito para ser eleito presidente do Brasil, caso a campanha das diretas tivesse tido sucesso. A própria transição à democracia teria sido diferente, porque o PMDB tinha um programa de reformas econômicas e sociais, que acompanhavam indissoluvelmente a reinstalação da democracia no pais.

A derrota das diretas e a morte de Tancredo Neves permitiram que a transição fosse vitima da mesma elite da época da ditadura, com o ex-presidente do partido da ditadura e dirigente da campanha contra as diretas, Jose Sarney sendo, paradoxalmente, o primeiro presidente civil da democracia, eleito pelo Colégio Eleitoral para ser vice-presidente.

A transição ficou assim restrita a um novo pacto de elite na história brasileira, com o novo regime instalado não com a cara da resistência democrática e da campanha das diretas, mas com a cara do Colégio Eleitoral e do compromisso do novo com o velho, sob a égide de um dirigente da ditadura – Sarney. Não como acaso, ACM foi o todo poderoso ministro das comunicações, enquanto Ulysses ficava escanteado.

Ainda assim, Ulysses comandou o momento mais alto da transição democrática, a Assembleia Constituinte, da qual ele foi o presidente e que ele denominou de Constituinte Cidadã, justamente porque afirmava o que a ditadura havia liquidado e o que o neoliberalismo voltaria a atacar. Apenas aprovada, Sarney já a atacou, afirmando que ela tornava o Estado ingovernável – diagnóstico já neoliberal -, porque garantia direitos que o Estado não estaria em condições de promover.            

O fracasso do governo Sarney esgotou o impulso democrático, levou a candidatura de Ulysses à presidência, em 1989 a não ter nenhuma transcendência, porque o PMDB, embora não dirigisse o governo Sarney, pagou o preço de tê-lo eleito e apoiado.

Com a morte de Ulysses Guimarães, o PMDB se descaracterizou completamente. Ficou reduzido a um partido fisiológico, sem capacidade de nem sequer lançar candidato à presidência, mas controlando o Congresso e assim negociando seu apoio aos governos, seja o de FHC, como os de Lula e de Dilma.

A chegada de Michel Temer à presidência é a resultante desse processo fisiológico e que teve num nome anônimo o perfeito para presidir um partido anônimo e adesista a todos os governos. O PT não o escolheu como vice, apenas aceitou a indicação do PMDB pelo seu presidente, em aliança que se tornou indispensável, depois que Lula quase foi derrubado por impeachment, em 2005, sem maioria parlamentar.

Vice decorativo, conforma confissão dele mesmo, Temer ficou disponível para aventuras politicas, como o golpe, e ameaçado de condenação nos inúmeros casos de corrupção em que ele mesmo está diretamente envolvido, além de acobertar todos os outros casos do seu partido, sob a sua  presidência. Salvo pelo seu mentor Eduardo Cunha, Temer pôde ser o instrumento do golpe da direita para tirar o PT do governo e impor o programa derrotado, ao qual o próprio Temer se opôs, quando foi eleito vice presidente em 2010 e reeleito em 2014.

Traidor, corrupto, oportunista, medíocre, incompetente, covarde – vai acumulando os piores epítetos que um politico pode ter e, por isso mesmo, se prestou para ser instrumento do golpe e ser condenado por todo o País, que entoa o “Fora Temer”.

Até que o PMDB se propõe a expulsar um dos últimos parlamentares dignos do partido, Roberto Requião porque, como ele diz, ele não é ladrão. Ao que chegou o partido do doutor Ulysses, honesto e combativo dirigente democrático brasileiro, a quem Temer não teria podido sequer se aproximar, pelo horror que provocaria naquele que protagonizou as glórias do PMDB, hoje partido reduzido ao golpismo, à corrupção e ao neoliberalismo, contra o povo, a democracia e o Brasil.

RADUAN PREVÊ GOLPE TUCANO CONTRA TEMER E CONDENA LINCHAMENTO DE LULA

: 247 – Um dos maiores nomes da literatura brasileira em todos os tempos, o autor Raduan Nassar, autor dos clássicos "Lavoura Arcaica" e "Um copo de cólera", condenou o processo de linchamento a que o ex-presidente Lula vem sendo submetido, após comandar o maior processo de inclusão social da história do Brasil, e também previu que o interino Michel Temer ainda será golpeado pelo PSDB, para que se retome de vez, no Brasil, a agenda neoliberal. Leia abaixo:

Cegueira e linchamento - Raduan Nassar

O inglês Robert Fisk, em artigo no jornal londrino "The Independent", afirma que, segundo as duras conclusões do relatório Chilcot sobre a invasão do Iraque, o ex-primeiro ministro Tony Blair e seu comparsa George W. Bush deveriam ser julgados por crimes de guerra, a exemplo de Nuremberg, que se ocupou dos remanescentes nazistas.

O poodle Blair se deslocava a Washington para conspirar com seu colega norte-americano a tomada do Iraque, a pretexto de este país ser detentor de armas de destruição em massa, comprovado depois como mentira, mas invasão levada a cabo com a morte de meio milhão de iraquianos.

Antes, durante o mesmo governo Bush, o brutal regime de sanções causou a morte de 1,7 milhão de civis iraquianos, metade crianças, segundo dados da ONU.

Ao consulado que representava um criminoso de guerra, Bush, o então deputado federal Michel Temer (como de resto nomes expressivos do tucanato) fornecia informações sobre o cenário político brasileiro. "Premonitório", Temer acenava com um candidato de seu partido à Presidência, segundo o site Wikileaks, de Julian Assange.

Não estranhar que o interino Temer, seu cortejo de rabo preso e sabujos afins andem de braços dados com os tucanos, que estariam governando de fato o Brasil ou, uns e outros, fundindo-se em um só corpo, até que o tucanato desfeche contra Temer um novo golpe e nade de braçada com seu projeto de poder -atrelar-se ao neoliberalismo, apesar do atual diagnóstico: segundo publicação da BBC, levantamento da ONG britânica Oxfam, levado ao Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro, a riqueza acumulada pelo 1% dos mais ricos do mundo equivale aos recursos dos 99% restantes. Segundo o estudo, a tendência de concentração da riqueza vem aumentando desde 2009.

O senador Aloysio Nunes foi às pressas a Washington no dia seguinte à votação do impeachment de Dilma Rousseff na exótica Câmara dos Deputados, como primeiro arranque para entregar o país ao neoliberalismo norte-americano.

Foi secundado por seu comparsa tucano, o ministro das Relações Exteriores, José Serra, também interino-itinerante que, num giro mais amplo, articula "flexibilizar" Mercosul, Brics, Unasul e sabe-se lá mais o quê.

Além de comprometer a soberania brasileira, Serra atira ao lixo o protagonismo que o país tinha conseguido no plano internacional com a diplomacia ativa e altiva do chanceler Celso Amorim, retomando uma política exterior de vira-lata (que me perdoem os cães dessa espécie; reconheço que, na escala animal, estão acima de certos similares humanos).

A propósito, o tucano, com imenso bico devorador, é ave predadora, atacando filhotes indefesos em seus ninhos. Estamos bem providos em nossa fauna: tucano, vira-lata, gato angorá e ratazanas a dar com pau...

Episódio exemplar do mencionado protagonismo alcançado pelo Brasil aconteceu em Berlim (2009), quando, em tribunas lado a lado, a então poderosa Angela Merkel, depois de criticar duramente o programa nuclear do Irã, recebeu a resposta de Lula: os detentores de armas nucleares, ao não desativá-las, não têm autoridade moral para impor condições àquele país. Lula silenciou literalmente a chanceler alemã.

Vale também lembrar o pronunciamento de Lula de quase uma hora em Hamburgo (2009), em linguagem precisa, quando, interrompido várias vezes por aplausos de empresários alemães e brasileiros, foi ovacionado no final.

Que se passe à Lava Jato e a seus méritos, embora supostos, por se conduzirem em mão única, quando não na contramão, o que beira a obsessão. Espera-se que o juiz Serio Moro venha a se ocupar também de certos políticos "limpinhos e cheirosos", apesar da mão grande do inefável ministro do STF Gilmar Mendes.

Por sinal, seu discípulo, o senador Antonio Anastasia, reproduz a mão prestidigitadora do mestre: culpa Dilma e esconde suas exorbitantes pedaladas, quando governador de Minas Gerais.

Traços do perfil de Moro foram esboçados por Luiz Moniz Bandeira, professor universitário, cientista político e historiador, vivendo há anos na Alemanha. Em entrevista ao jornal argentino "Página/12", revela: Moro esteve em duas ocasiões nos EUA, recebendo treinamento. Em uma delas, participou de cursos no Departamento de Estado; em outra, na Universidade Harvard.

Segundo o Wikileaks, juízes (incluindo Moro), promotores e policiais federais receberam formação em 2009, promovida pela embaixada norte-americana no Rio.

Em 8 de maio, Janio de Freitas, com seu habitual rigor crítico, afirmou nesta Folha que "Lula virou denunciado nas vésperas de uma votação decisiva para o impeachment. Assim como os grampos telefônicos, ilegais, foram divulgados por Moro quando Lula, se ministro, com sua experiência e talento incomum de negociador, talvez destorcesse a crise política e desse um arranjo administrativo".

Lula não assumiu a Casa Civil, foi rechaçado no Supremo Tribunal Federal pelo ministro Gilmar Mendes, um goleirão sem rival na seleção e, no álbum, figurinha assim carimabda por um de seus pares, Joaquim Barbosa, popstar da época e hoje estrela cadente: "Vossa Excelência não está na rua, está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro... Vossa Excelência, quando se dirige a mim, não está falando com seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar".

Sugiro a eventuais leitores, mas não aos facciosos que, nos aeroportos, torciam o nariz ao ver gente simples que embarcava calçando sandálias Havaianas, que acessem o site Instituto Lula - o Brasil da Mudança.

Poderão dar conta de espantosas e incontestes realizações. Limito-me a destacar o programa Luz para Todos, que tirou mais de 15 milhões de brasileiros da escuridão, sobretudo nos casebres do sertão nordestino e da região amazônica. E sugiro o amparo do adágio popular: pior cego é aquele que não quer ver.

A não esquecer: Lula abriu as portas do Planalto aos catadores de matérias recicláveis, profissionalizando-os, sancionou a Lei Maria da Penha, fundamental à proteção das mulheres, e o Estatuto da Igualdade Racial, que tem como objetivo políticas públicas que promovam igualdade de oportunidades e combate à discriminação.

Que o PT tenha cometido erros, alguns até graves (quem não os comete?), mas menos que Fernando Henrique Cardoso, que recorria ao "Engavetador Geral da República", à privataria e a muitos outros expedientes, como a aventada compra de votos para sua reeleição.

A corrupção, uma enfermidade mundial, decorre no Brasil do sistema político, atingindo a quase totalidade dos partidos. Contudo, Lula propiciou, como nunca antes, o desempenho livre dos órgãos de investigação, como Ministério Público e Polícia Federal, ao contrário do que faziam governos anteriores que controlavam essas instituições.

A registrar ainda, por importante: as gestões petistas nunca falaram em "flexibilizar" a CLT, a Previdência, a escola pública, o SUS, as estatais, o pré-sal inclusive e sabe-se lá mais o quê, propostas engatilhadas pelos interinos (algumas levianamente já disparadas), a causar prejuízo incalculável ao Brasil e aos trabalhadores.

Sem vínculo com qualquer partido político, assisto com tristeza a todo o artificioso esquema de linchamento a que Lula vem sendo exposto, depois de ter conduzido o mais amplo processo de inclusão social que o Brasil conheceu em toda a sua história.

domingo, 21 de agosto de 2016

Paisagem Noturna - Manuel Bandeira

A sombra imensa, a noite infinita enche o vale...
E lá no fundo vem a voz
Humilde e lamentosa
Dos pássaros da treva. Em nós,
- Em noss'alma criminosa,
O pavor se insinua...

Um carneiro bale.
Ouvem-se pios funerais.
Um como grande e doloroso arquejo
Corta a amplidão que a amplidão continua...
E cadentes, metálicos, pontuais,
Os tanoeiros do brejo,
- Os vigias da noite silenciosa,
Malham nos aguaçais.

Pouco a pouco, porém, a muralha de treva
Vai perdendo a espessura, e em breve se adelgaça
Como um diáfano crepe, atrás do qual se eleva
A sombria massa
Das serranias.

O plenilúnio vai romper... Já da penumbra
Lentamente reslumbra
A paisagem de grandes árvores dormentes.
E cambiantes sutis, tonalidades fugidias,
Tintas deliqüescentes
Mancham para o levante as nuvens langorosas.

Enfim, cheia, serena, pura,
Como uma hóstia de luz erguida no horizonte,
Fazendo levantar a fronte
Dos poetas e das almas amorosas,
Dissipando o temor nas consciências medrosas
E frustrando a emboscada a espiar na noite escura,
- A Lua
Assoma à crista da montanha.
Em sua luz se banha
A solidão cheia de vozes que segredam...

Em voluptuoso espreguiçar de forma nua
As névoas enveredam
No vale. São como alvas, longas charpas
Suspensas no ar ao longe das escarpas.
Lembram os rebanhos de carneiros
Quando,
Fugindo ao sol a pino,
Buscam oitões, adros hospitaleiros
E lá quedam tranqüilos ruminando...
Assim a névoa azul paira sonhando...
As estrelas sorriem de escutar
As baladas atrozes
Dos sapos.
E o luar úmido... fino...
Amávico... tutelar...
Anima e transfigura a solidão cheia de vozes...

Teresópolis, 1912